quinta-feira, 21 de novembro de 2013

RAFAEL JR. - Working Man


O convidado de hoje do blog é o baterista Rafael Jr. Quando fiz parte da banda Sulanca, em turnê pelo estado de São Paulo no ano de 2000, o setor de RH da banda entendeu que deveríamos dividir o quarto, "por termos temperamentos parecidos", devem ter imaginado. O que passa longe da verdade: Rafael exerce uma influência silenciosa, destacando-se pela ponderação, discrição e equilíbio, ao passo que minha tendência é à imprevisibilidade. Bem...talvez tenha sido por isso mesmo que nos juntaram. Findou sendo sábia a decisão, pois terminamos a turnê sem o mínimo sinal de ranço ou desgaste.

Treze anos depois, eis que classifico uma música de minha autoria, "Universe" (que inclusive foi objeto do post anterior) para o festival Sescanção 2013. Na banda-base, lá estava Rafael. O baterista de Indie Rock que conheci no final dos 90s tornara-se um músico versátil, capaz de acompanhar com autoridade o desfile de estilos variados que assolou o Teatro Atheneu, num Halloween em que, se as bruxas se soltaram, voaram pra muito longe, pois a festa da Música foi impecável.

Então, leitores, é com muita honra que publico neste singelo espaço as palavras sempre eloquentes de Rafael Jr., um músico sergipano eclético e talentoso que hoje colhe os frutos de sua dedicação e perseverança semeadas ao longo dos últimos 20 anos.  




(Vinnas) Conheci você no final dos anos 90 tocando sons indie com a Snooze, hoje no entanto você é dos músicos mais ativos e ecléticos da cena sergipana, tocando jazz, rock, freelancers etc. Como se deu essa metamorfose e a que você credita sua credibilidade e versatilidade atuais?

(Rafael) As coisas não acontecem da noite pro dia, foi um processo que durou muito tempo, a longo prazo mesmo. Foi difícil, no início, me dissociar da imagem de “rockeiro” ou “baterista da Snooze”. As pessoas não me chamavam pra tocar. A primeira oportunidade que tive de tocar música popular veio com a Maria Scombona em 1995, eu era muito “duro” ainda e tinha dificuldade de tocar ritmos do Nordeste e com dinâmicas mais baixas... Depois vieram trabalhos com Joésia Ramos, Nino Karvan, Alex Sant´anna, bandas de cover que tocavam no Tequila Café, etc. E aí veio a Sulanca, que me ajudou muito. Paralelamente, eu tocava música clássica com a Orquestra Sinfônica, e tudo isso junto foi me dando um certo background pra atuar de forma consistente em diversos “ramos”, digamos assim. Outra coisa que ajudou muito foi tocar em barzinho com dinâmica baixa, acompanhando cantores de MPB com vassourinhas (o mais constante foi Eddy Felix, durante uns 2 anos no Teimonde, todo sábado). O jazz veio depois, há menos de 10 anos pra cá, e foi outra nova escola pra mim. A versatilidade vem disso tudo aí “junto e misturado”. Sobre credibilidade, acho que vem da seriedade com o trabalho, do bom relacionamento com as pessoas, etc. Procuro cumprir todos os horários e compromissos da melhor forma possível, procuro manter a comunicação fácil e fluida, procuro respeitar todos os colegas de profissão... São regras básicas de convivência, que aliadas ao fato de fazer bem os trabalhos, geram essa tal credibilidade a que você se refere.  


Fortress: primórdios
Quais as influências de Rafael Jr.? Na bateria e na Música em geral?

São tantas que não dá pra listar tudo. Como baterista eu me divido em vertentes, de acordo com o que toco e ouço. Meu início foi no rock e Neil Peart era a principal referência, hoje me vejo cada vez mais distante desse tipo de “super baterista”, técnico e virtuoso, apesar de admirar muito. Então cito sempre o que ficou em mim, que é o estilo mais básico e ao mesmo tempo explosivo de Ringo Starr, John Bonham, Keith Moon e Carmine Appice, autor do método que estudei no início e que ainda uso pra dar aula a iniciantes. Num outro campo, os bateras de jazz que ouço mais são Buddy Rich e Gene Krupa, ainda são atualíssimos e impressionantes. Na música brasileira, gosto de samba jazz (Edison Machado, Milton Banana, Dom Um Romão, Rubinho Barsotti, Wilson das Neves, Airto Moreira, Robertinho Silva) e preciso citar Paulinho Braga e Nenê como pilares da bateria moderna brasileira, em trabalhos que devem ser ouvidos com gente como Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Elis Regina, João Bosco e Milton Nascimento. Uma última vertente, que entrei de cabeça nos últimos 10 anos, é a soul music, e ouço basicamente os caras que tocavam com James Brown (Jabo Starks e Clyde Stubblefield), bateristas das gravadoras Motown e Stax (Al Jackson Jr), etc. Outros que tenho ouvido muito nos últimos 5 anos são Zigaboo Modeliste (The Meters) e o nigeriano Tony Allen, que tocou nos discos de Fela Kuti e inventou o “afrobeat”.

Ao mesmo tempo que citei todos esses bateristas, digo que ouço música sem pensar especificamente na bateria, mas em termos gerais. Normalmente esses caras estão envolvidos com grandes artistas e compositores, produzindo ótima música com sutileza, groove consistente e/ou idéias simples ou originais. Gosto de coisas básicas e cruas também, ainda ouço punk rock! Um de meus artistas prediletos é o Elvis Costello, e as pessoas que tocam comigo também me influenciam (Alejandro Habib, Saulinho Ferreira, Robson Souza, Fabinho Snoozer e tantos outros). Meus professores também me influenciaram: Wallace Patriarca, Tony Batera, Carlos Ezequiel.

Faça um histórico de Rafael Jr: como despertou o interesse pela Música, com quem estudou, por quais bandas passou, etc.

Eu sou de 73, e no fim dos anos 70 e nos anos 80 ouvia-se muita música boa em minha casa, era cheio de vinis de Caetano, Chico Buarque, Gil, Elis etc. Aquelas coleções de MPB da Abril, tinha tudo lá, caixas e mais caixas. Cresci ouvindo isso, e também ouvindo minha mãe cantar nas serestas familiares com meus tios (um deles é Beatlemaníaco e nos aplicou os fab four em 1986 gravando coletâneas em fitas cassete). Acompanhei o “boom” do rock nacional e gostava de Titãs, Legião Urbana, IRA e Paralamas, fazia “air drum” e rasgava sofás no fim dos anos 80, batucando. Nessa época eu já me interessava pelo “subterrâneo” lendo a revista Bizz e buscando bandas como Finis Africae, Fellini, Violeta de Outono, De Falla, etc. Aí uns críticos começaram a falar de bandas britânicas e americanas ali pelo fim dos anos 80 e eu só fui ter acesso comprando discos na virada da década de 90, colecionando vinis de Jesus & Mary Chain, Husker Du, Pixies, Sonic Youth, Cocteau Twins, etc. Essa “fase indie” não passou, hehehe, gosto de tudo isso e ouço até hoje, mas fui retomando as coisas antigas da MPB e descobrindo novos sons, ouvindo folk, jazz, algo de música clássica e depois soul music. Ouvindo, lendo, pesquisando sempre.


Snooze: primórdios
Uma namorada me levou até a academia de música Carlos Gomes em 1991 e lá estudei um pouco com Valdeleno, que era baterista da Karne Krua e me levou num ensaio. Tomei contato com a cena local e comprava discos na Lokaos de Silvio (hoje Freedom). Depois entrei no Conservatório e estudei com Wallace Patriarca, um pernambucano que passou cerca de 10 anos por aqui e hoje está na Sinfônica de Goiânia. Ele tinha sido aluno de Antônio Barreto e de Luiz Anunciação, o Pinduca, sergipano radicado no RJ e aposentado da Sinfônica Brasileira, além de regente de orquestras na Globo (faleceu recentemente). Ali foi a grande escola, 3 anos estudando sério, até ele ir embora e me deixar pronto pro concurso da ORSSE. Paralelamente fiz aulas particulares com o incrível Tony Batera, que não tinha nem formação nem didática, mas uma grande experiência de vida e dedicação ao instrumento. Me ensinou a tocar ritmos latinos e brasileiros, e tivemos uma grande amizade. Eu ando preocupado porque soube que ele está doente, sem trabalho, mas não tenho muito contato. Ele tem uma fama de “doido”, mas pra mim é um ser humano sensível e que não teve muitas oportunidades e orientação na vida. Ele não aceitava o dinheiro das aulas, eu levava peles, baquetas, vassourinhas... Ele ficou amigo do meu pai, tinha uma relação além de professor-aluno.


Snooze: hoje
Nessa época (início dos anos 90) toquei numas bandas de rock pesado com Hugo Leonardo Ribeiro e depois formei a Snooze com meu irmão, que está aí até hoje. Sobre as bandas que passei já falei antes, e depois fui tentando participar de todos os cursos e workshops possíveis, foram muitos! Fiz umas aulas avulsas com Carlos Ezequiel (alagoano formado na Berklee, professor do Souza Lima em SP) e tentei retomar o conservatório recentemente pra estudar xilofone com James Bertisch, multi-instrumentista curitibano que toca na ORSSE, mas não tô conseguindo arrumar tempo, mesmo depois de formado! Fiz aulas com ele na UFS (na disciplina de percussão), participei de trabalhos com a direção musical dele (Sescanção, CD de Heitor Mendonça), é outro amigo recente e hoje ele ainda é meu sub de bateria no Quarteto Clube do Jazz, além de fazer uns shows com o Ferraro tocando teclados!

Todos os músicos que tocaram comigo na Sulanca destacam a experiência como muito relevante, mormente a turnê pelo estado de São Paulo. Qual o impacto que a banda teve em sua formação (e continua tendo, já que você ainda é integrante)?

Todos os trabalhos que me envolvo são importantes e de alguma forma aprendo algo novo, mas na Sulanca foi algo sem precedentes, até aquele período (1998 ou 99, eu acho).
Vinnas e Rafael: Sulanca, 2000
Conhecer a fundo a cultura popular sergipana foi uma forma de me conhecer melhor. Aprender cada fraseado de percussão de cada uma das inúmeras manifestações folclóricas existentes no Estado me abriu horizontes, me fez um músico melhor, com um vocabulário ritmico mais abrangente também. E aquela experiência nenhuma faculdade vai trazer, é a música do nosso povo transmitida pela oralidade. Me sinto agraciado por aquelas informações terem chegado até mim. Fora isso, toquei com grandes músicos na banda, a exemplo do falecido Gilson Batata (baixo) e os percussionistas Pedrinho Mendonça e Ton Toy. Aprendi e aprendo muito com eles, e também com Jorge Ducci, o idealizador de tudo. Infelizmente não há uma continuidade no trabalho da forma que eu gostaria de ver, a banda está muito afastada do cenário atual, e isso é uma pena.  

Seu TCC (nota: Rafael é formado em Música pela UFS) aborda o início das gravações fonográficas em Sergipe. Por que abordou o assunto, considerando a relativa decadência atual da mídia gravada em detrimento de Internet, MP3, youtube, pirataria etc?


Abordei o assunto por uma questão de paixão pessoal mesmo, já que sou apreciador e colecionador de discos desde os tempos do vinil, além de atuar em gravações em nosso pequeno mercado. O foco na verdade é a comparação entre produções locais nos anos 1980 e nos dias atuais, independente de formato. Mas tive que fazer um retrospecto do início desse processo de produção fonográfica por aqui, através de pesquisa com fontes orais, algo que foi muito pouco abordado até então, com exceção para o historiador Luís Antônio Barreto, já falecido. Cheguei a entrevista-lo, e mergulhei em seus artigos para o portal infonet. Quem tiver interessado em ler o trabalho, está disponível pra baixar em pdf aqui, depois da entrevista, ou no site da OBSCOM, da UFS (do pessoal que produziu o Catálogo da Música de Sergipe). O título da monografia é “O FENÔMENO FONOGRÁFICO EMARACAJU: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE DISCOS PRODUZIDOS NA DÉCADADE 1980 E NA ATUALIDADE”.

Falando em TCC, o seu se utiliza de linguagem acessível, sem perder o conteúdo e o rigor dos trabalhos acadêmicos. Parabenizo-o e gostaria que você falasse mais sobre os percalços que enfrentou para produzir trabalho tão significativo quanto inédito.

Obrigado pelas palavras, você foi um dos primeiros interessados em ler o trabalho, quando eu ainda estava produzindo, e agora continua colaborando com a parte da divulgação. Os percalços foram o de qualquer trabalho acadêmico, tem que ralar e correr atrás das informações, tem que dispor de tempo e dedicação, tem que adequar o conteúdo às regras acadêmicas. Meu problema pessoal foi conciliar a feitura do TCC com minhas atividades de músico e pai de família, foi difícil e por isso mesmo demorei mais de 1 ano e meio pra concluir, depois de acabar todas as disciplinas do curso de Música da UFS em 4 anos... Contei com a orientação e paciência do professor João Liberato, que ajudou muito, mas não tem jeito: é você que tem que ir lá e escrever! Outras pessoas que ajudaram e preciso agradecer: o professor e amigo Hugo Ribeiro, a colega Kadja Emanuelle e os artistas que entrevistei: Julico (The Baggios), Rubens Lisboa, o pessoal do Cataluzes, Paulo Lobo, Lula Ribeiro e Alcides Mello, entre outros. Todos foram solícitos em conceder seu tempo, informações e material.  

Você teve atividade relevante no mundo dos Fanzines, continua produzindo material escrito, afora TCCs?

Fiz fanzines entre 1995 e 1999, depois colaborei um tempo escrevendo em outros zines, em blogs e sites de música Brasil afora, e no jornal local Cinform, onde eu tinha uma coluna durante um tempo. Ainda recebo discos mas não escrevo muito, vez ou outra faço um post no Facebook sobre algum disco independente que gostei e que acho que merece uma maior divulgação, uma espécie de resenha sucinta. Parei mais de escrever quando tava virando uma obrigação, ficou chato. Além do mais as pessoas estavam começando a me chamar de "crítico musical”, aí eu fugi mesmo! hehehe.

Você graduou-se na Faculdade de Música quando já contava com uma carreira bem estabelecida na cena Sergipana. O que levou você a encarar a Academia e o estudo formal? De que maneira isso agregou à sua formação?

Eu fiz Administração nos anos 90 e não concluí, optei pela música “full time” e mantive um compromisso pessoal de voltar à graduação apenas quando abrisse o curso de Música na UFS, já que eu estava preso a Aracaju por conta da família e de emprego formal (primeiro como músico da Orquestra Sinfônica e depois da Banda do Corpo dos Bombeiros). Eu já sabia da importância do estudo formal aliado à vivência prática da música popular, já tinha passado pelo Conservatório de Música, etc. Em 2007 abriu o curso, prestei vestibular e entrei na primeira turma. Eu já dava aula, mas não era “educador” (são coisas diferentes, e a maioria dos professores de bateria não entendem isso). Não tenho nem como citar tudo
Com a Maria Scombona
o que agregou à minha formação e carreira. Primeiro que eu ACHAVA que entendia de música, mas eu entendia de “música pop contemporânea” e algo de teoria musical, principalmente rítmica. E só. Quando você estuda História da Música, e estamos falando de séculos de desenvolvimento da linguagem musical, vê que “o buraco é mais embaixo”. O que eu posso fazer é citar as disciplinas do currículo e recomendar a qualquer jovem que pretende ser músico (de verdade) a ingressar no curso: Estruturação Musical, Percepção Musical, Prática de Conjunto, Canto Coral, Prática de Regência, Metodologia do Ensino da Música, Fundamentos da Educação Musical, Etnomusicologia, Instrumento (flauta, piano, canto, percussão), Novas Tecnologias e Educação Musical, Música e Cinema, etc etc etc... Fora isso ainda temos o estágio prático ensinando em escolas do município e da rede estadual, os simpósios de educação musical e a produção do trabalho acadêmico, além do convívio com músicos de faixas etárias distintas, gente do rock, da música erudita, de igreja, de bandas filarmônicas, de banda de forró... Não tem como não tirar bom proveito de tudo isso!

Como você vê a cena da música sergipana atual? Me parece que assistimos a uma pujança nunca antes vista na história deste país do forró. Ou é só impressão? O que destacaria de prós e contras nesse novo status quo?

Não é impressão. A cena está mais diversificada, mais profissional, muito músico jovem bom, muita banda legal. E olhe que com o tempo nossos ouvidos ficam mais críticos, mas eu sou um entusiasta. O problema é que não tem espaço e público consumidor pra tudo, isso é normal. Então existe uma seleção natural e muitos desistem logo, sobram os que se dedicam de forma mais apaixonada e a longo prazo, fazendo discos e formando público dentro e fora de Sergipe. Quem chega por moda, vai-se logo. Às vezes tem muito “oba-oba” em cima de coisas pouco consistentes mas isso é normal, não é um fenômeno local. O “hype” tem em todo canto, faz parte.  


Ferraro Trio
Quais foram suas experiências musicais mais relevantes? Show inesquecível, performance memorável etc?

Eu encaro com seriedade qualquer gig, pode ser um barzinho pra pouca gente, um pub, etc. É trabalho do mesmo jeito, e é diversão porque gosto do que faço. Inclusive eu prefiro tocar em local pequeno do que em palco grande. Em teatro, por exemplo, é ótimo porque as pessoas vão ali com o objetivo de ouvir música, não é uma “balada” com som de fundo. Vou tentar citar as experiências mais relevantes:

- Curso de 1 mês em Londrina/PR com o pessoal da UNESP, liderada pelo americano John Boulder, doutor em percussão (o cara foi aluno de Vic Firth, da sinfônica de Boston, um pilar da percussão erudita no século XX). Foi em 1994, 1 mês estudando o dia todo, de manhã e de tarde, e a noite a gente assistia concertos diversos. Gente do Brasil todo, muito conhecimento. Quando voltei, prestei concurso pra ORSSE e passei, fiquei lá de 1995 a 2002, quando fui pra Banda dos Bombeiros.
- Tours e shows em festivais pelo Brasil com a Snooze, de 1996 até 2006 principalmente. Destaque para duas edições do “Goiania Noise Festival” em 2002 e 2006. Fomos em todas as capitais do Nordeste (exceção para São Luís/Maranhão), shows em SP e Rio, etc. Nessa época passávamos na MTV (clip, entrevistas), não parava de aparecer show em todo lugar...
- Tour de 1 mês com a Sulanca em SP, pelo Sesc. 21 shows em 19 cidades, e você era meu parceiro de quarto e aguentava os roncos! hehehe. Foi em 2000.
- Apresentação com o pianista paulista Marcelo Bratke e o baterista Pantico Rocha (ele toca com Lenine, Maria Bethânia), no auditório do Conservatório de Música. Era um circuito do Banco do Brasil e eles contratavam percussionistas locais, fui lá com Pedrinho Mendonça e lembro que foi a primeira vez que recebi um cachê maior, mais digno (hehehe), era algo como mil reais hoje. Foi entre 2000 e 2002, eu acho. Um tempo depois vi no Jornal Hoje da Globo que o pianista levou esse show com sucesso ao Carneggie Hall em Nova York, com outros músicos...
- Os projetos “Circuito Escolar” e “Mundo Rock Interior” com a Maria Scombona, onde ministramos workshops em vários colégios e no interior do estado. Foi muito gratificante, acho que foi entre 2005 e 2007.
- Show com o compositor gaúcho Wander Wildner na Rua da Cultura. Eu ouvia o cara desde moleque, com a banda Os Replicantes nos anos 1980, e de repente eu tava acompanhando ele. E é um cara muito bacana.
- Curso de música de câmara e concerto de percussão no Teatro Atheneu com direção e regência do professor Antônio Barreto, da Sinfônica de Pernambuco e Conservatório Pernambucano de Música. Ele é formado na Suiça e virou um amigo, mas não tenho tido muito contato recentemente. Acho que foi entre 2006 e 2008.
- Concertos com a ORSSE entre 2009 e 2011, não mais como funcionário mas como contratado. Os mais relevantes foram com os maestros Michel Legrand (França) e Isaac Karabtchevsky, além da apresentação com a ORSSE no Festival de Campos de Jordão.
- As últimas 3 edições do Sescanção como integrante da banda-base (2009, 2011 e 2013), além do Festival Alumiar da Secult (2012), de composições inéditas de forró, acompanhando vários artistas.
- Lançamento do segundo CD da Snooze no EMES em 2002 e do segundo da Maria Scombona no Teatro Tobias Barreto em 2007.
- Vários festivais em Aracaju como o Rock-SE (1998), Punka, Festival de Verão, Verão Sergipe, Circuito Cultural Banco do Brasil, Prata da Casa, etc etc. Encontros culturais de São Cristóvão, Laranjeiras, Japaratuba...
- Festivais de música instrumental recentes, com o Ferraro Trio: Circuito BNB na Paraiba e Ceará, Feira Música Brasil em Minas Gerais e Feira da Música de Fortaleza em 2012. Produzimos shows legais aqui também, como o lançamento do DVD no Teatro Lourival Batista.
Acho que é isso, é o que lembro. No mais, todo fim de semana a gente tá por aí nos pubs e bares e eventos...

Você tem composições de sua autoria? O que acha do eterno embate entre cover vs. Música autoral?

Minha participação é efetiva em arranjos, em todas as bandas, com várias idéias de intro, convenções, finais, estrutura ou de grooves primários onde algumas músicas são compostas em cima, a partir deles. Estudei o básico de piano, canto e solfejo mas não componho nada. Quando assinei composições foi na Snooze, mais pela coisa de banda mesmo, do tipo: todas as músicas do Black Sabbath são de Iommi-Osbourne-Butler-Ward, mas é claro que isso é um acordo!

Sobre música cover, sempre existiu e sempre vai existir, não adianta ficar “bradando” contra isso, e o cover não “acaba” com o autoral, isso é uma bobagem, tem espaço pra tudo. São coisas distintas, caminhos diferentes. Tem gente que sente necessidade de compor, tem gente que gosta de copiar e se divertir, qual o problema? Eu toquei numas bandas cover e aprendi com isso (principalmente com A Fábrica, que tinha uma agenda sempre movimentada), ganhei algum dinheiro, desenvolvi essa coisa do músico profissional, etc. O único problema, ao meu ver, é você tocar cover de graça! Porra, se eu vou tocar música de rádio pra um monte de gente ter diversão numa casa noturna, pagando ingresso pra isso, porque fazer isso de graça ou cobrando pouco? Isso eu não entendo, e aí vem aquele velho problema do “músico de fim de semana” de alguma forma tirando trabalho do músico profissional. É um mercado de entretenimento, e tem que gerar grana pra banda, pros músicos. Mas não há muito o que fazer, é uma discussão velha e não é algo local ou provinciano. O Coverama é muito criticado mas é um atrativo e tanto pra quem está começando: você vai tocar numa estrutura boa de som/palco/luz, pra um monte de gente e amigos, vai ‘brilhar” e postar fotos no Facebook etc, então não dá pra criticar esses adolescentes que participam né? De alguma forma o festival movimenta o mercado de instrumentos musicais, de estúdios de ensaios, etc. Eu mesmo tive muitos alunos que me procuravam por causa do coverama... O festival não serve pra mim, mas é perfeito pra quem tá começando. E pro empresário que idealizou tudo. Se isso vai inibir a vontade da garotada criar algo autoral, eu não sei. Sei que tem muita gente interessada em conhecer o trabalho de quem cria algo próprio, e pra esses é que devem estar reservados os espaços em festivais de música, editais, etc.

Quais seus projetos musicais atuais? O que empolga o artista Rafael Jr. no momento?

Tenho me dedicado mais à música instrumental, sem deixar os outros trabalhos de lado. Com o Quarteto Clube do Jazz, que é o Ferraro Trio com o saxofonista argentino Alejandro Habib, a gente toca standards, bossa nova, samba jazz e latin jazz. Há espaço pra improvisação, toco com dinâmicas baixas, tem muito arranjo de Habib e Saulinho com “tuttis”, tem composições próprias também, é bem legal. Com o Ferraro Trio consegui unir algumas paixões num trabalho só: jazz, rock e soul music estão ali bem distribuídos, ao meu ver. Saulinho é um compositor genial, sou fã.
No mais, a Snooze tem tocado menos mas quer produzir o quarto disco. A Maria Scombona está parada mas em breve volta, e toco com um monte de gente que me chama. Sempre pinta trampo aqui e ali... Gostaria de gravar mais em estúdio, com mais constância.

com A Fábrica, em Reveillon na Orla de Atalaia
Mídia: onde podemos ouvir/ver Rafael Jr. na grande rede?

Não tenho um site próprio que condense tudo e resuma minha carreira. Um amigo de Salvador disse que eu preciso fazer isso. Tento utilizar o facebook pra manter os amigos atualizados e sabendo onde vou tocar, mas as coisas se dissipam no tempo-espaço, é muita informação ali rodando ao mesmo tempo, um mar de inutilidades também, e você precisa saber selecionar o que quer ler/ouvir/saber... O que fica é o currículo a longo prazo, tenho as informações registradas, pra quando é necessário. Tenho os CDs lançados, os shows feitos, os cartazes impressos ou virtuais, as aulas dadas, os certificados, e vou fazendo a minha humilde história de vida como um simples músico de uma cidade pequena. As informações, aqui nessa entrevista, vieram da memória mesmo. Acessando o youtube é possível encontrar vídeos de minhas bandas – Snooze, Maria Scombona e Ferraro Trio principalmente, que são as que produzem material autoral. Snooze e Maria Scombona possuem sites próprios (desatualizados), o Ferraro tem My Space, a Maria tem Soundcloud...



Deixe uma mensagem para seus amigos, fãs, alunos etc.

Obrigado a todo mundo que acompanha algum dos meus trabalhos, ao pessoal que vai nos shows e ajuda a divulgar nosso som autoral. Esse espaço está sendo muito legal, valeu Vinnas. Eu respondia muitas entrevistas na época dos fanzines, mas era específico falando da Snooze, não tinha foco em minha carreira pessoal. Às vezes uns alunos de faculdade também me procuram para informações sobre o rock e a música em Sergipe, sobre fanzines, etc. E jornalistas, vez ou outra, querem saber minha opinião sobre a cena atual e bandas novas, ou algum festival que esteja acontecendo, etc. Falar de mim é diferente, gostei! hehehe. E eu já disse algumas vezes: meus “fãs” (não gosto muito da palavra) acabam virando amigos, são pessoas comuns que gostam das minhas bandas, que são pequenas, independentes, sem gravadora ou empresário. A relação é próxima, muitos acabam virando integrantes de bandas depois. Alguns ex-alunos também viraram “colegas de profissão” e tenho orgulho de muitos deles. Thiago Babalu e Bruno Silva, que estão em SP, Ch Malves que está na Paraíba, e Gabriel Perninha da The Baggios são alguns deles...  



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domingo, 10 de novembro de 2013

JULIO ANDRADE (The Baggios) - de São Cristóvão pro Mundo

O entrevistado de hoje é Júlio Andrade (Julico), guitarrista e mentor de uma das bandas mais bem-sucedidas surgidas nos domínios de Serigy, o duo The Baggios (com Gabriel Carvalho-bateria). Entrevistei-o pouco antes de a banda lançar-se em turnê pelo Brasil, divulgando o novo álbum “Sina”.

Além do talento musical natural, Júlio possui o senso prático que faz os artistas deslancharem, de modo que a banda sempre está produzindo mídia, tocando, viajando, enfim realimentando sua própria arte e “fazendo acontecer”.

Com a palavra, o guitarrista/cantor/compositor são-cristovense.


(Vinnas) Quando e por que você começou a tocar guitarra? Algum show ou vídeo a que assistiu, algo do tipo?
(Júlio) O interesse veio conforme eu ia descobrindo mais bandas de rock. Eu ganhei meu primeiro violão aos 14 anos e ouvia muito grunge e punk rock. Acho que é natural desejar uma guitarra quando se está interessado em aprender as músicas de bandas como Nirvana, Sonic Youth e Ramones. Eu juntei uma grana trabalhando numa locadora de videogames e finalmente consegui comprar minha primeira guitarra em 2001.

Você teve algum estudo formal de guitarra/Música?
Eu aprendi basicamente tirando música de ouvido. Claro que pegava algumas dicas com amigos que tocavam muito mais que eu. Mas quando eu comecei a ter noção de como tirar as músicas das bandas que curtia de ouvido, tudo mudou. Até hoje não sei ler partitura, e não acho que isso me faz falta. O blues me ensinou muito.

Quem são suas influências (guitarra, vocal e compositores)?
Minhas primeiras influências na guitarra foram Johnny Ramone e Kurt Cobain. Eu precisava começar tocando algo simples e esses caras conseguiam fazer riffs geniais com poucos acordes, e eu sou grato a eles. Mas eu levei guitarra mais a sério quando eu descobri Jimi Hendrix, Alvin Lee, Johnny Winter, Iommi e Page. O Hendrix e Page me fez entender o que é feeling e me levou ao blues. Passava horas tentando aprender riffs de músicas como “Freedom”, “Communication Breakdown”. Hoje em dia eles continuam me influenciando pra falar, mas acredito que hoje em dia to numa fase mais Iommi, riffs pesados e diretos.


Acho que como compositor, posso citar nomes brasileiros que me encorajaram a escrever letras em português, como Raul Seixas, Arnaud Rodrigues, Zé Rodrix, Tim Maia, Jorge Ben.


Você também passou pela fase “Iron Maiden/Metallica”?
Já ouvi, mas nunca fui muito fissurado. Conheço pra valer os três primeiros discos do Metallica, da era Cliff Burton. Quem nunca quis aprender o riff de “Seek and Destroy” ou de “The Trooper”?! Mas não acho que essas bandas foram importantes para minha formação musical.

Quando alguém monta um power-trio é imediata a associação a um dos grandes: Rush, Cream, Police etc. E um power-duo? De que fonte a banda bebeu pra fechar nessa formação?
A banda tem essa formação, mas foi por acidente. Toco em bandas desde 2001, e todas elas deram erradas por falta de compromisso. Não levavam música a sério. E só tinha um amigo meu que tava afim, daí resolvemos ir para o estúdio em 2004 experimentar e matar a secura. Na época conhecia bandas como White Stripes, Black Keys, Jon Spencer Blues Explosion, que não usavam baixo e isso nos instigou ainda mais. Hoje em dia gosto muito do Seasick Steve, Left Lance Cruiser e Daniel Norgren, que já tiveram suas fases como duo, mas que hoje experimentam outros formatos.

Em geral os power-trios tendem a preencher os espaços ao máximo, pra compensar a “falta de gente”. O Police tinha o polvo “Copeland”, o Rush tem...os três (mas Alex Lifeson inovou com voicings dissonantes, usando as 6 cordas). A Baggios (vale pro batera também) usa algum artifício do tipo?
Basicamente usamos uma guitarra ligada em um amp de guitarra e um outro sinal vai oitavado para um amp de baixo. Acho que o segredo mesmo está no formato das músicas, pois crio elas pensando no formato da banda, então os riffs que faço e a execução de Gabriel em cima deles, faz do nosso som, algo simples, porém impactante.

Que guitarras, amps e efeitos você usou no novo CD? E ao vivo, o que vem usando?
Usei em 80% do disco uma guitarra semi-acústica Hagstrom, uma marca alemã que faz guitarras lindas desde a década de 60. Pra mim é a melhor guitarra que tenho, e o mais legal é que não paguei caro. No disco usei muito fuzz. Experimentei o fuzz face em algumas faixas, O Sunface da Analogman, Bigmuff, e o FZ-5 da boss.

De amplificador eu usei em grande parte o Fender Deluxe Reverb e o Orange Thunderverb juntos. São dois amplificadores que me dou muito bem, apesar de preferir os fenders ao vivo, pois curto amp limpo. Acho que o fuzz tem um som mais lindão com eles.

Ao vivo eu uso o Wah da Vox, Big Muff, FZ5, Memory Boy, OC3 e um clone do Direct Drive.


Você faz parte de outras bandas. O que muda em relação a seu set-up “Baggio”? E quanto à forma de tocar ou timbrar?
Toquei durante 4 anos na plástico Lunar. Minha pegada era outra, tinha uma veia mais Hendrix e usava Stratocaster. As músicas que fiz para banda, são mais complexas, com muito mais riffs. Gostava muito de tocar com eles, pois além de ser fã, os caras são ótimos músicos e eu tinha muito espaço para solo, e isso é algo que não exploro muito com o The Baggios.

Fale sobre a gravação do novo CD. Alguma preparação especial antes de entrar no estúdio? Houve overdubs e double-tracking?
Passamos mais de um ano trabalhando nas músicas deste disco. O processo de pré-produção foi longo, gravávamos quase todos os ensaios, estudávamos as músicas, e isso ajudou muito a fazer com que as músicas soassem mais maduras e seguras. Quando entramos no estúdio já sabíamos qual bateria usar, amps, guitarras, e poupou tempo pois estávamos seguro com todas as músicas.  
Eu costumo fazer overdubs nas guitarras e na voz. Me amarro em dobrar voz, me sinto mais seguro fazendo isso. E também fiz algumas dobras em pequenos solos do disco.

Você ainda mora em Sergipe? Já pensou em se mudar para um grande centro a fim de obter mais visibilidade ou “estar mais perto”?
No momento moro em São Cristóvão, onde nasci e morei toda minha vida. Acho que no momento não estou seguro se quero morar fora, pois estamos sempre viajando, e essa sensação de voltar pra casa é legal, saca? Eu acho que é legal experimentar passar temporadas em cidades como São Paulo, por exemplo, onde se concentra os grandes festivais, grandes jornais e produtores articulados. Estamos com o plano de passar um período mais longo por lá, pois quando vamos passamos 2 a 3 semanas no máximo.

E essas camisas listradas, é influência de Pat Metheny?
Não foi algo pensado, sou meio desapegado com visual, mas eu gosto de uma camisa listrada e a uso em boa partes dos shows. Acho que acabou sendo uma marca registrada, mas não foi influencia de ninguém não. Eu nem conheço pra valer o trampo do Pat. (risos) 

Metheny: fã de listras, desde sempre
Deixe uma mensagem para os fãs, presentes e futuros.
Eu sou grato a todos que nos apoiam nesses quase 10 anos de banda. Eu essencial para gente, ter pessoas que escrevem depoimentos empolgados sobre nossos discos, ou shows. Eles realmente curtem o que fazemos e nos sentimos especial por ter tanta gente que nos ajuda, seja marcando presença nos shows, escrevendo resenhas. Somos gratos a nossos amigos que nos ajudam seja produzindo um disco, uma foto ou um clipe.

Quem não conhece nosso trabalho, acessa http://site.thebaggios.com.br/, conheça um pouco da nossa música e baixe “Sina”, pois esse é o melhor trabalho que já pude produzir nos 12 anos de guitarra.


Coletânea de Links

O site oficial é muito bem-feito, recheado de videos, fotos, músicas etc. De modo que hoje, a coletânea é de um só. Vale a pena a visita, tudo tem muita qualidade de design, video, audio, enfim: um festival pros olhos e ouvidos!


(créditos das fotos: Snapic)




domingo, 3 de novembro de 2013

SESCANÇÃO 2013

Olá, leitor! Dedico o post de hoje ao Sescanção, festival de música promovido pelo SESC/SE já em sua 14a edição, e do qual participei por oito vezes.

Sescanção 2013 




Participei de muitas versões do Festival como integrante da banda-base. Para ser mais específico, em 2000, 01, 03, 04, 05 e 06. Em 2002 estava numa sintonia um pouco diferente, mas mesmo assim participei do Festival, só que como... jurado. Ao lado de Maria Lúcia Dal Farra, Paulo Lobo e outros.


Faz algumas edições (acho que esta é a 2a ou 3a vez) o festival começou a admitir músicas intrumentais entre as participantes. E este ano, inspirado por uma frase de Evandro Shiruder durante sua apresentação na Palco Music em maio, decidi inscrever pela 1a vez uma de minhas poucas músicas instrumentais. Evandro disse que admirava Richie Kotzen, dentre outras coisas pela sua grande produtividade (Um fato! RK deve ter uns 40 álbuns em sua discografia, iniciada no final dos 80s). Resolvi sair da inércia, sacolejar o baú e ver se algo dali se aproveitava. Para minha alegria, uma das 3 músicas que enviei foi selecionada. A balada “Universe”, numa pegada meio Pink Floyd, meio Steve Vai. E que foi escrita no início dos anos 90, antes mesmo de existir Sescanção.

O Festival deste ano, cujo mote destacou a diversidade musical, apresentou de fato um grande mix de estilos. O choro de Brasileiríssimo e Os Tabaréus do Choro, a Nova MPB de Héloa, o rock de Os Lêmures, o (obviamente) samba de Samba de Moça Só etc. E lá estava eu no meio deles, reciclando meus velhos licks virtuosos - tão em voga no final dos 80s, quando comecei a tocar guitarra, influenciado pelo Metal e Hard Rock de Van Halen, Metallica, Iron Maiden, dentre outros.

Universe


“Universe” é uma música que escrevi no começo dos anos 90. Lembro-me de ensaiá-la com a 1a encarnação do Hemisferios ainda, com Fernando Bueno e Zé Milton, e salvo engano ela tinha uma letra. Basicamente eram os arpejos da base, com alguns efeitos de teclado, algo meio Rush, meio Floyd.


Tempos depois construí um solo sobre essa base, pegando emprestado muitas ideias de Steve Vai, guitarrista que fez minha cabeça na virada dos 80’s pros 90’s. Quando toquei na banda Graal, em 1994, com Rominho (bateria), Rony Medeiros (percussão), Wellington Mendes (trompete/arranjos), Robert Wagner (teclado) e Melcíades ("pai", baixo) ela integrou o repertório, embora destoando da pegada jazz/pop da banda, que tinha no seu repertório Santana, Chuck Mangioni, alguns standards, algumas autorais, etc.


E é justamente do ano de 1994 a última lembrança que tenho de tocar ao vivo “Universe”. Gravei-a de modo precário em 1997, no meu TASCAM de 4 canais (e fita K7 como mídia), com bateria programada por mim numa Roland DR-5, divulguei-na na ainda incipiente Internet dos 90s, com precário streaming e acesso discado, e depois ela foi pro fundo do baú. Acho que tinha meus motivos para tal: a música não possuía um tema definido, era apenas um longo solo de 4 minutos de duração, um guitar showcase que depois de algum tempo começou a soar enfadonho e distante da música que eu começava a apreciar, músicos como Steve Morse, Pat Metheny, Eric Johnson dentre outros. Para complicar a vida de Universe, escrevi depois a balada “Mother”, que tinha um feeling parecido, só que melhor definida enquanto tema, com direito a tonalidade paralela e outros truques composicionais. Universe, apesar do nome pomposo, e não obstante a textura interessante, é apenas um longo vamp sobre o modo eólio. Portanto, recebi com surpresa sua classificação para a Mostra do SESC. Eu achava que outra das 3 músicas que inscrevi, um baião, teria mais chances e até falaria mais a “linguagem do festival", que historicamente vem destacando artistas com forte pé no regionalismo, como Kleber Melo, Sena e Nino Karvan.


Cabe dizer que tenho uma visão bipolar dessa coisa de guitar-hero (como jocosamente me chamava Fabinho nas reuniões e ensaios). Ao mesmo tempo em que adoro o estilo, acho essa coisa de solos impossíveis meio enfadonha e caricata. Não sei se teria neurônios (pra decorar tantas notas) e estômago para, por exemplo, fazer um show que passasse de uma hora com esse tipo de música. E por isso mesmo um dos caras que mais admiro é Paul Gilbert, que apesar de possuir técnica ultra-desenvolvida mantém postura bem-humorada sobre sua própria condição de “herói”, sendo fã dos Beatles (escancara isso no álbum “Flying Dog”) e reinventando-se sempre, como fez em “Get Out of My Yard” com seu hilário human capo.


Bem, música selecionada, era tempo de desenferrujar e reaprender - ou “reler” - aquilo que havia gravado em 1997. Muitas frases e licks nem faziam mais parte de meu vocabulário atual, de modo que os readaptei em vez de tirá-los ao pé da letra. Nos ensaios deixei os músicos bem à vontade, e tinha motivos para tal: a música possui uma base simples e 99% das partes complicadas cabia a mim executar; ademais, a gravação e arranjos já estavam prontos, a partitura tinha sido disponibilizada ao SESC e tendo sido da banda-base do festival por 6 vezes, quis “dar um refresco” aos colegas da versão 2013, sabendo que muito trabalho árduo ainda os aguardaria. No único ensaio que houve antes da passagem de som houve alguns desencontros, corrigidos sem muita convicção - e sem que eu intercedesse com muita ênfase. E fomos em frente.


Junior Di Lima, Rafael Jr, Vinnas e Theo Lins. Foto: Janaina Amarante

No dia do Festival, durante a passagem de som no Teatro - na verdade era um ensaio com a mesma cadência da apresentação noturna - ocorreram desencontros também, e tivemos de parar a música no meio. Aquilo me preocupou, pois tinha visto os seis participantes prévios e todos estavam com suas músicas muito redondas, inclusive a de Mauri de Noronha, cujo arranjo possuía muitas convenções e dinâmicas. Comecei a entrar em pânico. Embora eu já tivesse, a exemplo dos pianistas de concerto, o mapa mental de todas as notas - e não eram poucas - que deveria tocar, uma cacofonia harmônica entre teclado e guitarra certamente me derrubaria. Em casa, enquanto me vestia pra voltar ao teatro, tive o insight e liguei pra Rafael Jr., isso já as 20 h. Disse a ele que estava preocupado, e que se houvesse algum erro eu pararia e começaria de novo. Ele passou a ligação pra Junior, baixista, e expliquei a ele o que estava acontecendo e o que deveria ser corrigido. “Senão eu paro!”, reiterei.

Meu velho amigo Barata fazendo as vezes de Wikipedia
Chegada a hora da apresentação, entrei no palco sem grandes pretensões. Afinal, embora a música instrumental esteja crescendo em Aracaju a olhos vistos, muitos combos de jazz/MPB florescendo, espaços aparecendo, eu tocaria um ROCK instrumental. Com muita distorção. Com bends. Com vibratos de tom e tom e meio. Enfim, estava preparado para o “silêncio de quem estranha o desconhecido”, com aplausos esparsos aqui e ali e que eram tão usuais ao final das músicas nos shows que fiz com a Sulanca. Não tive tempo de timbrar direito, o ampli era um Marshall e eu havia setado o pedal Bogner RED em casa para voicing de Fender. Mas vamos que vamos! Não tive nem tempo de olhar no rosto das muitas pessoas - o teatro estava cheio - pois a música exigia concentração total. Ainda mais que eu vinha treinando-a numa guitarra com cordas 010 e arm contour (o chanfro) no tampo, e no dia levei minha Wolfgang, com cordas 009 e sem arm contour. Parece bobagem, mas em guitarras sem ele o antebraço sofre mais pressão e a mobilidade da palhetada, entre as cordas, perde muito se você estiver habituado a guitarras com ele. A performance não foi perfeita. Houve pequenos erros que, embora despercebidos da maioria, incomodam quem escreveu e sabe que a música não saiu 100% perfeita. Mas fomos até o final, sem erros na estrutura da música, e após arpejar o último acorde, um open sounding Em(7/9/11) - que toquei sozinho, na vibe do começo da música - aplausos efusivos inundaram meu coração de alegria. Como bem disse Rafael Jr. depois, a melhor performance foi a “da vera”. Ainda bem! Peguei minhas tralhas e voltei pro camarim. Dos músicos que lá se refestelavam com o banquete oferecido pelo SESC, recebi nova leva de aplausos. Fiquei satisfeito. A “leve pressão” funcionou e no fim tudo deu certo!

Por ora pouparei o leitor de ouvir a versão 1997 da música. Sem dúvida a que irá pro CD terá melhor qualidade sonora. Agradeço pela compreensão e peço paciência aos curiosos. Aliás, sou eu mais um, também muito ansioso pela vida que uma banda real, com músicos excelentes, há de conferir à minha obra.





Abraços e até o próximo post!

Coletânea de Links

Soundcloud


Youtube

Vídeo que eu mesmo produzi 
com trechos da passagem de som e do show


Paul Gilbert e o "human capo"